O Ney de Rumi e as Pedras de Ítaca: Quando o Anseio Olha Para Dentro ou Para Fora
Em 1688, um jovem estudante de medicina na Basileia procurava um nome para uma doença estranha. Johannes Hofer havia notado que os mercenários suíços nos campos de batalha definhavam por um mal curioso. Tinham febre, perdiam o sono, alguns soldados morriam de verdade. A causa não era um micróbio. A causa eram as montanhas distantes — o que os matava, ou às vezes deixava pior que a morte, eram os sinos das vacas de suas próprias aldeias, o cheiro de seus próprios vales.
Hofer batizou esse mal juntando duas palavras gregas: nostos (νόστος — retorno ao lar) e algos (ἄλγος — dor). Assim nasceu a “nostalgia”. No começo, a palavra não veio ao mundo para descrever um sentimento, mas como um diagnóstico.
O curioso é o seguinte: enquanto o Ocidente colocava esse sentimento na mesa de exames como uma doença, o Oriente elevava o mesmo sentimento como uma forma de devoção. A palavra turca hasret e a “nostalgia” de raiz grega tocam o mesmo ponto — mas olham de perspectivas completamente diferentes.
Uma quer voltar para casa. A outra questiona até o que é a casa. Vamos contar…
A Voz Arrancada do Canavial
O Masnavi de Rumi começa com uma única ordem: “Escuta.” Depois, quem fala é o ney. “Como esta flauta se queixa, contando histórias de separações.”
O ney é um caniço. Foi cortado do canavial, arrancado, e nunca mais poderá voltar àquelas terras úmidas. Mas esse rompimento não o silencia — pelo contrário, o transforma em algo que canta. É justamente porque o caniço foi esvaziado por dentro que ele consegue produzir som. Se não tivesse sido arrancado, teria permanecido mudo, apenas mais uma planta entre os juncos.
Na tradição sufi turca, o ney representa a saudade e o anseio. O eco da alma separada de sua fonte divina ressoa dentro do ser humano como o lamento do ney. O ser humano foi moldado do barro, mas animado por um sopro divino; a tensão entre essas duas origens produz um anseio que nunca se aquieta. Quem sente saudade, na verdade, não é você — é o sopro dentro de você, que anseia pela fonte de onde veio.
Um pequeno detalhe torna isso ainda mais nítido: Rumi usa a palavra “separação” não no singular, mas no plural. Separações. Como se o rompimento não fosse um evento que aconteceu uma vez e acabou, mas um estado que se vive de novo a cada instante.
A cada sopro, o ney lembra que foi arrancado outra vez — e a cada vez que é tocado, sente saudade de novo.
Yunus Emre canta o mesmo fogo numa língua mais simples: “Eu caminho ardendo, ardendo; o amor me tingiu de sangue.” Em Yunus Emre, o anseio não é uma doença. É o instante em que a alma lembra da própria verdade. Mesmo sem usar a metáfora do ney, Yunus Emre chegou à mesma essência.
É interessante: Yunus não diz isso no persa palaciano de Rumi, mas no turco do camponês da Anatólia — a saudade desce ao povo, se instala na boca de todos. Rumi, embora tenha se tornado “Mevlana” nas terras da atual Turquia, escreveu em persa.
Aqui, um leitor brasileiro reconhece o terreno de imediato. Temos uma palavra que os dicionários do mundo inteiro desistiram de traduzir: saudade. E ela guarda uma sutileza que combina perfeitamente com o ney — pode-se sentir saudade não só do que se perdeu, mas do que nunca se viveu. É o mesmo movimento do sopro que anseia por uma fonte que a memória não alcança.
Precisamos notar uma coisa: a tradição sufi não tenta curar o anseio — ela o preserva. Porque se o anseio passa, o vínculo também se rompe. O soldado suíço que sentia falta de suas montanhas queria se curar; o sufi que sopra o ney não quer cura nenhuma — ele está em busca do retorno à essência.
As Pedras de Ítaca
O anseio da Grécia Antiga, por sua vez, nasce numa terra completamente diferente. Não no céu, mas no chão.
Odisseu venceu Troia e ganhou a guerra — mas a vitória não lhe rendeu nada. Para chegar à sua pátria, vagou pelos mares por mais dez anos. A ira dos deuses, monstros, feiticeiras, tempestades… Para Odisseu, existia um único desejo: sua terra, Ítaca. A esposa, o filho, sua própria ilha rochosa. A Odisseia de Homero é, em essência, uma história de nostos — uma epopeia do retorno.
O anseio aqui é concreto. É a falta de um rosto, de uma porta, de uma oliveira. Odisseu não procura uma fonte abstrata, mas uma casa que ele pode tocar. Na imaginação de Odisseu estão as pedras de Ítaca, sua água, seu cheiro.
Eis uma pequena ironia da história: a alma saudosa de Odisseu vem da Grécia Antiga, mas a palavra “nostalgia” não vem de lá. Essa palavra sai da pena de um médico na Basileia, três mil anos depois. Os gregos viveram o sentimento; quem lhe deu nome foi a medicina ocidental. Podemos dizer que a alma da palavra nostalgia é antiga, mas seu nome é moderno.
E tem mais: o nostos era um desejo sagrado na cultura grega. O herói que não conseguia voltar para casa era o mais trágico de todos. A jornada de Odisseu não era um castigo, era uma prova — e a recompensa era o instante em que seus pés tocassem a própria terra.
Por Que Um Olha Para Dentro e o Outro Para Fora?
Mas afinal, por que os dois anseios apontam para direções tão diferentes? A resposta está escondida na religião e na cosmologia.
No pensamento sufi, este mundo é uma hospedaria passageira. O verdadeiro lar não está aqui, mas na fonte de onde a alma veio e para onde vai retornar. Por isso o anseio se volta para dentro. Ele não aponta para onde você vai, mas de onde você veio. O hasret não é uma bússola — é uma lembrança.
Já na mitologia grega antiga, deuses e humanos compartilham o mesmo mundo. O Olimpo fica no topo de uma montanha, não além do céu. O que Odisseu deseja não é uma fonte sagrada, mas uma Ítaca de pedras e terra bem definidas. Por isso o anseio se volta para fora — está preso a um mapa, a uma direção, a um destino concreto.
O Oriente diz: “lembre-se de onde você veio”. O Ocidente diz: “encontre para onde você vai”. Dois anseios tentando preencher o mesmo vazio por dois lados diferentes.
E talvez os dois tenham razão. Uma pessoa pode ter sido arrancada de um lugar, ou pode querer chegar a algum lugar. Talvez o hasret e a nostalgia sejam óculos diferentes — um olhando para o passado, outro para o futuro. A saudade, essa nossa velha conhecida, talvez seja o raro sentimento que usa os dois óculos ao mesmo tempo — não à toa, coube a Tom Jobim e à bossa nova transformá-la em som, do mesmo jeito que o sufi transformou o anseio em ney.
O fim do anseio — seja chegar a Ítaca, seja voltar ao canavial — é também a morte daquilo que o mantém vivo. E talvez a coragem mais silenciosa do ser humano seja continuar o caminho sabendo disso.
Quem conhece o próprio anseio sabe também para onde vai…
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