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Oriente × Ocidente

A beleza está na rachadura ou na perfeição? Japão, Islã e Grécia

9 de julho de 2026·9 min de leitura

Falar sobre beleza é estranhamente difícil. Todo mundo sabe quando algo é belo, mas quando alguém pergunta “o que é a beleza?”, as respostas se dispersam. Para alguns, a beleza passa pela perfeição — e, no entanto, muitas vezes os objetos parecem mais belos justamente quando não são perfeitos.

Um exemplo: há séculos, os tecelões de tapetes e kilims da Pérsia e da Anatólia inserem de propósito um erro até nas suas obras mais belas. Já os escultores, em geral, fazem um esforço especial para gravar a perfeição na pedra.

Neste texto, vamos ver como culturas diferentes definiram a beleza a partir de princípios quase opostos:

a estética japonesa do wabi-sabi, a concepção de perfeição divina da tradição islâmica, o ideal grego antigo do kalos kagathos.

A beleza dentro da rachadura

No Japão do século XIV, o mestre do chá Murata Jukō escolheu para a cerimônia tigelas rústicas, foscas, assimétricas. Enquanto todos esperavam o brilhante e o precioso, ele disse que a verdadeira beleza mora dentro da imperfeição. Foi ali que nasceu o conceito de wabi-sabi. “Wabi” é uma melancolia serena, nascida da simplicidade e da solidão. “Sabi” é o valor daquilo que o tempo marcou — o desgastado, o envelhecido. Juntos, os dois formam esta ideia: o que torna uma coisa bela é justamente ser passageira e incompleta.

Ainda hoje você pode comprar uma xícara de chá wabi-sabi. E, ao tomar seu chá, sorrir com esse saber sobre a beleza.

A expressão mais conhecida dessa ideia da beleza áspera é a arte do kintsugi. Uma cerâmica quebrada é restaurada com as rachaduras preenchidas de ouro. A origem também é significativa: segundo a tradição, o xogum Ashikaga Yoshimasa mandou para a China uma valiosa tigela de chá quebrada, para que fosse consertada. Quando a tigela voltou, estava presa com grampos de metal feios. Isso levou os artesãos japoneses a buscar um conserto mais bonito — e assim nasceu a arte de reparar com ouro. As rachaduras não são escondidas; são honradas. A ferida se torna a biografia do objeto.

Com o tempo, peças de cerâmica valiosas, incompletas, quebradas pelas marcas dos anos, renasceram pela arte do kintsugi. E a coisa chegou a tal ponto que peças sem rachadura nem quebra passaram a ser quebradas de propósito, só para receber o kintsugi.

Essa estética não ficou restrita às tigelas quebradas; impregnou toda uma sensibilidade japonesa. Contribuiu para a formação do que os japoneses chamam de “mono no aware” — aquela doce tristeza que nasce da transitoriedade das coisas. Pense nas cerejeiras que florescem na primavera: no Japão, milhões de pessoas saem para contemplá-las, mas as flores são tão amadas exatamente porque caem poucos dias depois. Se fossem permanentes, não seriam tão preciosas. Aqui, a beleza está ligada a um instante; murchar não é o defeito da beleza, é a sua condição. A estética japonesa ensina a olhar com carinho para a transitoriedade do que é mortal.

Neste ponto, não posso deixar de dizer: o kintsugi, na verdade, não conserta um objeto — acrescenta a ele uma história. Antes de quebrar, a tigela era “só uma tigela”; depois de quebrada e restaurada, vira algo que tem uma vida, um passado. Talvez seja assim com as pessoas também — o que realmente nos aprofunda não é nunca termos quebrado, mas o modo como consertamos nossas rachaduras. Uma cultura que não esconde as feridas, que pelo contrário as faz brilhar com ouro, talvez esteja nos dizendo: “não tenha vergonha do seu passado, transforme-o”.

Os tecelões de kilim da Pérsia e da Anatólia, por sua vez, chegavam ao mesmo lugar por um caminho completamente diferente. Para eles, tecer um kilim perfeito — criar uma obra impecável do começo ao fim, sem um único erro — era, em si, um ato de soberba. Porque a criação perfeita pertencia somente a Deus; a mão humana imitá-la era passar dos limites. Por isso os mestres enterravam um erro deliberado bem no meio de um padrão complexo que levava horas — um nó a mais numa cor, uma linha onde a simetria se quebra de propósito. Era difícil de perceber; mas estava lá. Como um sinal secreto de humildade, como uma saudação silenciosa erguida ao céu. Onde o wabi-sabi diz “o quebrado é belo”, o mestre do kilim dizia outra coisa: “a perfeição não pertence a mim, pertence a Deus”.

A escada da beleza

Nas ruas da Atenas antiga, o conceito de kalos kagathos era ao mesmo tempo um elogio e um ideal. A tradução literal é “belo e bom” — e os dois não podiam ser pensados separadamente. Para os gregos, quem era verdadeiramente belo tinha que ser também virtuoso. Uma alma feia não podia carregar um corpo belo; e, se carregasse, aquela beleza era um engano passageiro.

Esse ideal moldou também a escultura. Os escultores gregos viam a beleza não como acaso, mas como matemática. Mestres como Policleto calcularam as proporções “perfeitas” do corpo; simetria, equilíbrio e proporção áurea eram, para eles, a fórmula secreta da beleza. Quanto mais medida e equilibrada uma estátua, mais bela — porque aquela ordem refletia a estrutura racional do universo. Enquanto os japoneses, com o wabi-sabi, amavam a assimetria e a imperfeição, os gregos exaltaram exatamente o contrário: a simetria e a perfeição. Um dizia “o incompleto é belo”; o outro, “o completo é belo”. Séculos depois, Oscar Niemeyer daria a esse debate uma resposta vinda do Brasil: recusou o ângulo reto e a simetria rígida e escolheu a curva — a das montanhas e dos rios do seu país e, como ele mesmo gostava de dizer, a do corpo da mulher amada. Sinal de que a beleza nunca aceitou uma fórmula única.

Platão, no Symposion — o “Banquete” —, descreve a beleza como uma escada. Você começa por um único rosto belo, sobe aos corpos belos, dali às almas belas, depois ao conhecimento belo e, no fim, chega à beleza em si — à forma imutável, eterna, incorruptível. A beleza se torna, assim, um destino final; é ao mesmo tempo o combustível da subida e a sua recompensa. Olhar para um rosto belo era apenas o primeiro degrau dessa escada; a verdadeira viagem era rumo à verdade imutável por trás daquela beleza.

Há alguns dias, reservei quatro horas para mim e fui visitar o Museu de História Natural de Viena. Parei diante de cada quadro, tentando entender o que a pintura dizia. Percorri o museu perguntando ao ChatGPT, uma a uma, sobre a época em que cada obra foi feita, seu simbolismo, o olhar do pintor. A beleza e a estética não são algo que espera pronto por você; para capturá-las, é preciso parar e refletir. É por isso que a escada de Platão é valiosa — cada degrau começa com a escolha do degrau anterior, e o primeiro degrau é simplesmente conseguir parar. Quando você consegue ficar tempo suficiente diante de um único quadro, examinando-o camada por camada, sente que ele começa a carregar você para algum lugar.

Quando coloco lado a lado as tradições do Oriente e do Ocidente sob a ótica da beleza e da estética, algo se desenha para mim: essa diferença vem, na verdade, de duas concepções distintas de universo. No Japão, o princípio budista do “anicca” ensina que tudo é passageiro; apegar-se ao permanente produz sofrimento, enquanto achar belo o transitório é uma libertação. Na Grécia antiga, o mundo das ideias de Platão constrói exatamente o oposto: tudo o que os sentidos percebem se corrompe, mas as ideias não mudam — a verdadeira beleza vive naquele mundo imutável. Um encontra a beleza bem no meio do desaparecimento; o outro a procura naquilo que jamais se corrompe.

A sabedoria dos três olhares

O lado brilhante do wabi-sabi é que ele democratiza a beleza. Quando não existe um padrão chamado perfeição, ninguém fica de fora. Uma xícara rachada, um rosto envelhecido, uma folha amarelando no outono — tudo é candidato a ser belo. E esse olhar carrega um presente escondido: ensina a fazer as pazes com o desaparecimento. Se você consegue achar bela a flor que murcha, o fim da vida dela machuca um pouco menos. É um consolo silencioso contra a dor de ser mortal.

No mês passado, um relógio de pulso de sessenta anos chegou às minhas mãos. Tinha passado por revisão, sido consertado, voltado a funcionar. O mostrador tinha o amarelado dos anos. Na primeira vez que o coloquei, não quis mais tirá-lo do pulso. O peso de um objeto que atravessou o tempo era algo que um relógio novo não poderia dar. É esse olhar que democratiza a beleza — tudo o que está gasto, tudo o que carrega marcas, é ainda mais candidato a ser belo.

Já na perspectiva grega do kalos kagathos, a beleza não é mero gosto visual, mas a expressão exterior de uma alma bela. E essa ideia carrega uma crítica profunda à aparência superficial: a imagem engana, mas a beleza verdadeira transborda de dentro para fora. A pergunta “o que parece belo é sempre bom?” talvez esteja diante de nós hoje, na era das fotos com filtro e das imagens polidas, mais do que nunca. Os gregos fizeram essa pergunta há milhares de anos e também deram a resposta:

Parecer belo não é o mesmo que ser bom; mas quem é verdadeiramente bom, cedo ou tarde, parece belo.

Houve uma época em que, olhando para as vidas ao meu redor, tudo parecia sempre completo — a casa certa, a viagem certa, a foto certa. As faltas da minha própria vida me pareciam maiores. Depois percebi que meu olhar era uma lente que não me organizava, mas se alimentava da comparação. Talvez a resposta silenciosa do wabi-sabi seja esta: a beleza não depende da completude, depende do olhar. Não podemos dizer que uma vida sem filtro é menos bela que uma vida filtrada — é apenas o olhar diferente que a torna bela.

Hoje precisamos de todos esses olhares mais do que nunca. A era das redes sociais impõe uma beleza impecável e lisa, enquanto os filtros apagam cada ruga, cobrem cada mancha. Isso é uma projeção distorcida do ideal grego do kalos kagathos. E o wabi-sabi chega exatamente nesse ponto como uma pausa para respirar: sussurra que o rosto que envelhece, a voz que falha, a vida que fica incompleta também podem ser belos.

Aqui, porém, é preciso fazer justiça aos gregos. Ao dizer “parecer belo não é o mesmo que ser bom”, eles estavam descrevendo, há milhares de anos, a maior armadilha de hoje: diziam que uma estética vazia por dentro não pode nos enganar, que a beleza verdadeira cedo ou tarde transparece no rosto da alma. É exatamente por isso que aquela beleza lisa e filtrada que as redes sociais nos oferecem deixa algo faltando dentro de nós. Porque ela não ensina a ser bom — ensina a parecer bom.

Talvez o mais saudável seja misturar os três olhares sobre a beleza: a intuição grega de que “a beleza é inseparável da bondade” deve caminhar junto com a ternura japonesa de que “a imperfeição também é bela” e com a humildade do mestre do kilim, para quem “a perfeição não pertence ao homem, pertence a Deus”.

Escrito por S.K.C. em Viena, em 15 de junho de 2026.
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